Nascido em 1888 em Sebollas, distrito de Paraíba do Sul, Deoclécio pertencia à primeira geração de negros que nasceu livre no Brasil. Chegou a Petrópolis ainda criança por conta de seu talento musical. Autodidata, tornou-se um dos principais nomes da vida musical petropolitana nas primeiras décadas do século XX: professor, diretor e regente da Escola de Música Santa Cecília, fundador do Corpo Orfeônico da instituição em 1937, maestro da Jazz Rio Petrópolis — banda vencedora do concurso de "melhor banda de jazz" da cidade em 1934 —, além de regente do Coro da Liga Católica JMJ e da Banda Primeiro de Setembro, em Cascatinha.
Quando morreu, em outubro de 1942, milhares de pessoas acompanharam seu cortejo fúnebre e a Escola Santa Cecília fechou as portas durante um mês em sinal de luto. Com o passar do tempo, porém, sua trajetória foi perdendo espaço na memória oficial da cidade.
O processo de resgate começou em 2006, quando tia Lili realizou a exposição “Deoclécio em Pauta”, reunindo documentos, fotografias e partituras do avô. Em 2022, a pesquisa ganhou um novo impulso após um encontro com Carol Pitzer, que daria origem ao documentário “Canção para Deoclécio”, vencedor do Prêmio Maestro Guerra-Peixe na categoria audiovisual em 2024.
“Carol Pitzer e Victor Yoshinori presentearam não apenas nossa família, mas também a história do Brasil com mais um capítulo. Trouxeram à baila um maestro negro autodidata, nascido em Sebollas no ano de 1888, que fez a diferença e deixou lembranças em vida na cidade de Petrópolis e na formação de tantas pessoas. Hoje, “Canção para Deoclécio" é um filme. E agora, sua história também ganha forma e é escrita. Muito agradecida à dramaturga, atriz e minha prima de coração, Carol Pitzer”, destaca Lilian Regina Marcilio Nogueira, neta de Deoclécio.
Durante a realização do filme, Carol encontrou diversas menções ao artista em jornais, registros históricos, além de partituras originais escritas à mão pelo maestro. Ao longo da pesquisa, contudo, percebeu que os documentos revelavam a dimensão pública de Deoclécio, mas não davam conta de acessar seus afetos, desejos e subjetividades.
Foi dessa percepção que nasceu o livro. Dramaturga de formação, Pitzer fez o que sabe fazer: imaginou. A partir dos documentos que tinha em mãos, criou cenas, contos, cartas e fragmentos que colocam o leitor dentro dos espaços frequentados pelo maestro.
“Comecei a escrever a partir dos dados históricos, mas estava muito sofrido. Em algum momento percebi que precisava trabalhar também com as lacunas”, conta. “Se essas histórias não chegaram até nós, como criar um imaginário mais positivo para as próximas gerações? Porque eu acredito que a ficção pode ser reparadora para além do passado. Ela pode criar novos futuros.”
A própria música de Deoclécio ocupa um espaço central nesse processo de reconstrução. Metade da publicação é composta por partituras encontradas durante as pesquisas para o documentário e transcritas especialmente para o projeto. Entre elas estão “Berceuse”, “Mutt e Jeff”, “Elvira”, “Bijou”, “Ila” e “As Segadeiras e as Respigadeiras”. Uma das obras aparece reproduzida em fac-símile, preservando o formato original em que chegou a ser comercializada em uma loja de música no Rio de Janeiro — um registro raro da circulação de seu trabalho à época.
Além de integrarem o livro, as partituras também serão disponibilizadas gratuitamente no site da Rocio Produções para impressão, pesquisa e execução musical, ampliando o acesso à obra de Deoclécio para músicos, pesquisadores e novos públicos.
O lançamento do livro acontece em junho, em dois encontros. No dia 17, às 18h, o Centro de Cultura Raul de Leoni recebe uma sessão do documentário “Canção para Deoclécio”, seguida de roda de conversa com Carol Pitzer, Lilian Regina Marcílio Nogueira e o historiador Lucas Ventura da Silva. Já no dia 20, às 16h, o livro será lançado no Espaço Cultural Comunitário Maestro Deoclécio de Freitas, no Vila Rica, com a presença da historiadora Roberta Santos Gregório.
Sobre a autora
Carolina Maria Pitzer Fugita nasceu em Petrópolis (RJ), em 1986. Tem formação em cinema e especialização em artes cênicas e dramaturgia. No teatro, assina como Carol Pitzer; no audiovisual, como Lina Maria Fugita. É autora de cinco peças publicadas — Phobos e Deimos, Enquanto ela dormia, Nomes Difíceis para Objetos Inúteis, Concórdia e Marlene — encenadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, além de exibições on-line no Chile e na Argentina.
Seu primeiro longa-metragem documentário, “Canção para Deoclécio”, recebeu o Prêmio Maestro Guerra-Peixe na categoria audiovisual em 2024. Filha de historiadores, desenvolve trabalhos que investigam as fronteiras entre documento, ficção e memória.
Serviço:
Lançamento do livro “Deoclécio Damasceno de Freitas – Um maestro negro na cidade imperial”, de Carol Pitzer
17 de junho (quarta-feira), às 18h
Local: Centro de Cultura Raul de Leoni - (Praça Visc. de Mauá, 305 - Centro, Petrópolis/RJ)
Programação: Exibição do documentário “Canção para Deoclécio" seguida de roda de conversa com Carol Pitzer, Lilian Regina Marcílio Nogueira e o historiador Lucas Ventura da Silva, e mesa de autógrafos.
20 de junho (sábado), às 16h
Local: Espaço Cultural Comunitário Maestro Deoclécio de Freitas (Rua B, Travessa 5, Quadra 6, Casa 13 - Vila Rica, Petrópolis/RJ)
Programação: Roda de conversa com Carol Pitzer e a historiadora Roberta Santos Gregório, e mesa de autógrafos.
Formatos: livro físico (à venda), e-book e audiolivro (gratuitos)
Site: www.rocioproducoes.com.br/maestro-deoclecio
Instagram: @deocleciomaestro
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