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ESG | Toda primeira terça-feira do Mês

A água acabou. Mas o slide ficou lindo. 

Por Momento ESG, Agenda News

Publicado em 04/03/2026 13h39

A água acabou. Mas o slide ficou lindo.  Divulgação
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Todo ano é a mesma cena. Março chega, o Dia Mundial da Água aparece no calendário, e as empresas brasileiras acordam com uma urgência repentina de salvar o planeta. Os posts ficam azuis, os comunicados internos chegam cheios de gotinhas, o RH manda um e-mail sobre "uso consciente nos banheiros", e o relatório ESG ganha mais uma página com fotos de torneiras fechadas e funcionários sorrindo. 

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Depois, em abril, voltamos ao normal. Eu trabalho com eficiência hídrica desde 2018. Já entrei em centenas de operações industriais neste país. E posso te dizer, com a clareza de quem não tem paciência para eufemismo: o Brasil desperdiça água com uma competência assustadora, e boa parte das empresas está ajudando. 


Os números que ninguém quer colocar no relatório 
O Brasil tem a maior reserva de água doce do planeta. Cerca de 12% de toda a água superficial do mundo está aqui. É um privilégio geográfico que qualquer nação desenvolvida trataria como patrimônio estratégico. A gente trata como desconto. 


Segundo o Instituto Trata Brasil, perdemos 40% de toda a água captada antes mesmo de ela chegar ao destino. Quarenta por cento. Não é vazamento de startup, é hemorragia sistêmica. São 8 mil piscinas olímpicas jogadas fora por dia. Água que poderia abastecer 66 milhões de pessoas por um ano, evaporando em ruas, tubulações envelhecidas e indiferença institucional. 
E o enredo piora: a ONU projeta que até 2050, 5 bilhões de pessoas no mundo sofrerão com escassez hídrica. No Brasil, 35 milhões já vivem essa realidade agora, hoje, enquanto você lê esse texto. 


A Confederação Nacional da Indústria calcula que o consumo industrial de água no país vai crescer 24% até 2030. Alguém aí já abriu o terceiro slide do deck ESG para explicar isso ao conselho? 


O problema com o "ESG de vitrine" 
Não estou dizendo que as intenções são ruins. Estou dizendo que intenção sem diagnóstico é só ansiedade bem-vestida. 
A maioria das empresas que diz "ter compromisso com a água" nunca mediu seu próprio consumo com precisão. Não sabe onde perde. Não sabe quanto custa essa perda. Não tem meta real, com baseline real, com prazo real. 


Tem uma política. Tem um certificado na parede. Tem o logo no relatório de sustentabilidade. E tem uma conta de água que aumenta todo ano, que o financeiro trata como custo operacional inevitável, em vez de ineficiência corrigível.


Greenwashing não é necessariamente mentira deliberada. Às vezes é só covardia de não ir fundo o suficiente.
 O que eficiência hídrica de verdade parece na prática 
Quando entramos em uma operação, a primeira pergunta que fazemos não é "vocês têm política de sustentabilidade?" A pergunta é: "vocês sabem quanto consomem por unidade produzida?" 
O silêncio que essa pergunta gera já diz tudo. Eficiência hídrica real começa com diagnóstico cirúrgico, mapeamento de consumo, identificação de pontos de perda, análise de qualidade e possibilidade de reuso. Depois vêm tecnologia e processos: sensores, automação, sistemas de reaproveitamento, treinamento de equipe com indicadores que as pessoas entendem e acompanham de verdade. 
Não é romantismo ambiental. É engenharia aplicada com retorno financeiro mensurável. Empresas que tratam água como recurso estratégico, e não como utilidade descartável, cortam entre 20% e 45% do consumo sem impactar produtividade. Isso se transforma em redução de custo, mitigação de risco regulatório e, sim, em um ESG que não envergonha na due diligence. 


Uma última provocação 
O canudo. O relatório. O slide bonito. Tudo isso tem valor zero se a empresa não souber responder a uma pergunta simples: "Qual foi a sua variação de consumo hídrico nos últimos 12 meses, e o que você fez a respeito?" Se a resposta vier com hesitação, o ESG ainda é marketing. Se vier com dados, com contexto e com próximos passos, aí estamos conversando.

 
A água não espera pelo próximo Dia Mundial. E o mercado, cada vez menos, também não.

Pedro Vitali é CEO da T&D Sustentável, empresa especializada em eficiência hídrica com mais de 1 bilhão de litros de água economizados.



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A Coluna Momento ESG é um espaço dedicado a reflexões práticas sobre sustentabilidade, gestão e impacto positivo nos negócios. A coluna aborda, de forma acessível e estratégica, temas como eficiência operacional, uso inteligente de recursos naturais, inovação, governança e decisões que conectam resultado financeiro à responsabilidade ambiental e social. Mais do que conceitos, o Momento ESG traz aprendizados do dia a dia, provocando líderes e organizações a transformarem discurso em ação.

Pedro Vitali é engenheiro químico, cofundador e CEO da T&D Sustentável, startup que transforma eficiência hídrica em impacto ambiental e financeiro. Natural do interior do Espírito Santo, encontrou em um problema cotidiano o ponto de partida para empreender e gerar mudança real. À frente da empresa desde 2018, já ajudou organizações em todo o Brasil a economizarem mais de 1,5 bilhão de litros de água, unindo inovação, sustentabilidade e resultados concretos para a agenda ESG.