Papo de Compliance
coluna

Papo de Compliance

Compliance | Mensal

A Síndrome do Relatório Perfeito: Como metas irreais e o presenteísmo sabotam o compliance

Por Papo de Compliance, Agenda News

Publicado em 16/09/2026 11h26

A Síndrome do Relatório Perfeito: Como metas irreais e o presenteísmo sabotam o compliance Foto gerada por IA - Gemini
  Compartilhar

Olhe para o planejamento estratégico de algumas corporações hoje e você verá números saídos de uma obra de ficção. A ordem desce da diretoria sem espaço para questionamento: "crescer 40% no trimestre". Sem diálogo, sem aumento de equipe e sem novos recursos. O que sobra é apenas a cobrança implacável. E o sintoma mais perverso consequência dessa equação é a explosão do presenteísmo crônico.

Continua depois da publicidade:
Feirinha de Itaipava 10-2024

Um levantamento de agosto de 2026, revelou uma realidade alarmante: o número crescente de profissionais que continuam trabalhando mesmo quando estão doentes — física ou mentalmente. A velha guarda da gestão costuma aplaudir esse sacrifício chamando-o de "resiliência", "vestir a camisa" ou "sentimento de dono". Mas, sob a lente do compliance comportamental, o presenteísmo motivado pelo medo tem outro nome: falha estrutural de liderança.

Quando um gestor impõe metas inatingíveis, ele não estimula a alta performance; ele cria um ambiente de sobrevivência. É o corpo que entra na reunião ou loga no sistema, mas com uma mente exausta, operando no limite pessoal e do erro.

A virada de chave é entender que a cobrança irrealista não afeta apenas a saúde corporativa. Ela mina a governança.

Então, onde nascem as maiores fraudes, falhas de segurança cibernética e atalhos éticos? Nas mãos de equipes pressionadas a entregar o impossível para garantir seus empregos. O talento encurralado por uma meta delirante maquia números, isso porque a própria cultura normalizou o absurdo. Quem vai denunciar um assédio moral se a ordem para "entregar a qualquer custo" veio do topo?

Além disso, espremer o profissional até a última gota deixou de ser apenas um problema de clima e virou um passivo regulatório pesado. A ampliação da NR-1, exige, também, a gestão de riscos psicossociais. Uma cultura que compromete a saúde do colaborador em troca de um bônus fundamentado em matemática mágica é, na prática, uma fábrica de processos trabalhistas e adoecimento.

A governança moderna exige que a gestão abandone a fantasia da planilha e foque na realidade, através de três pilares inegociáveis:
Factibilidade Negociada: Metas não podem ser decretos. A liderança precisa descer à operação, entender e perguntar: "Temos tempo, equipe e ferramentas reais para entregar isso com qualidade e integridade?".

Segurança Psicológica (Listen Up): O colaborador precisa ter espaço para levantar a mão e dizer "essa meta é irreal" ou "não estou em condições hoje", sem o pânico de ser rotulado como fraco, problemático ou substituível.

Cultura de Impacto, Não de Sacrifício: Glorificar quem trabalha conectado ao soro no hospital, ou respondendo e-mail de madrugada, é o atestado de falência de uma gestão. O foco deve estar na sustentabilidade do negócio, não no martírio corporativo.

Liderar não é preencher apresentações com desejos inalcançáveis e torcer para a equipe não quebrar no processo. O verdadeiro compliance garante que a ambição financeira do negócio nunca custe a integridade, a ética e a sanidade das suas pessoas.



Gostou desta publicação?

Continue nos acompanhando nas mídias sociais e confira muitos outros conteúdos exclusivos feitos para você! Estamos no Instagram, no Facebook e no YouTube! Agenda News é mais notícia e informação, sempre com você na sua mão.




Papo de Compliance

Papo de Compliance

Papo de Compliance é uma coluna mensal sobre integridade, ética e boas práticas dentro e fora do mundo dos negócios. Em tom de conversa e sem juridiquês, Manuela Filizzola mostra que compliance não é burocracia nem assunto só de grande empresa, e sim uma forma de construir relações de confiança, evitar riscos e fazer as coisas do jeito certo.

Sobre a Colunista
Manuela Filizzola é co-founder e Head de Comunicação da Escuta Ativa, primeiro canal de relacionamento, externa e independente do Brasil, voltado ao acolhimento de colaboradores, à mediação de conflitos e ao fortalecimento de ambientes de trabalho íntegros, saudáveis e sustentáveis. Com atuação voltada a pessoas, ética e governança, escreve mensalmente em Papo de Compliance para mostrar, em linguagem simples, como integridade e boas práticas transformam empresas e relações de trabalho. Já fez parte do programa Instep, da Infosys na Índia, e programas de conhecimento e desenvolvimento, presenciais, junto ao MIT e IBM.

Contatos:
Site: escuta-ativa.com
Instagram: @escuta.ativaea
LinkedIn: escuta-ativa