Ser mãe é, por si só, uma tarefa que exige dedicação total, mas quando essa responsabilidade recai sobre uma única pessoa, ela se multiplica. São mulheres que acumulam o papel de provedora, educadora, cuidadora, gestora da casa e, na maioria das vezes, ainda precisam se dedicar à própria carreira e desenvolvimento.
Dados divulgados pelo IBGE em novembro de 2025 apontam que 7,8 milhões de mulheres criam os filhos sozinhas no Brasil, o que representa que 13,5% das famílias brasileiras são de mães solo, enquanto os pais solo são de apenas 2%, cerca de 1,2 milhão. O que significa que para cada pai solo há seis mães criando seus filhos sozinhas no país.
Neste Dia das Mães, à ser celebrado no próximo domingo, dia 10, é preciso ir além das homenagens tradicionais e refletir sobre a carga emocional, educacional e financeira, principalmente daquelas que são a única referência para seus filhos. Pesa no coração e também no bolso.
“Quando existe apenas uma fonte de renda, esses valores deixam de ser apenas números e passam a ser o centro de toda a organização financeira da família. Enquanto em famílias com dois responsáveis os gastos são divididos, para essas mulheres, toda a receita precisa ser planejada, administrada e dividida para suprir as necessidades, muitas vezes com valores limitados”, pontua Juliana Werneck Duarte, professora do curso de Administração da Estácio, dizendo ainda que administrar deixa de ser apenas uma ferramenta de empresa e passa a ser uma habilidade de vida: é preciso saber priorizar, economizar, buscar alternativas e fazer o dinheiro render muito mais do que o normal.
“Os cálculos mostram o valor financeiro, mas não conseguem mensurar o desgaste emocional”. A mãe solo vive sob uma pressão constante:
- A preocupação de dar conta de tudo sozinha;
- A culpa por não conseguir proporcionar tudo o que gostaria;
- A falta de tempo para cuidar de si mesma;
- A sensação de que não pode parar ou adoecer, pois tudo depende dela.
“Ser mãe solo não é uma escolha, é uma realidade que merece todo o nosso respeito, apoio e atenção. O seu trabalho não tem preço, mas os seus direitos e o seu bem-estar têm valor inestimável”, conclui Juliana.
Sob a perspectiva do Direito
Muitas vezes as mães solo, mesmo com todas as dificuldades, são vistas apenas como "guerreiras”, um termo bonito, mas que acaba fazendo com que suas necessidades, limitações e sofrimentos sejam deixados de lado.
A Constituição Federal assegura a proteção integral à família e à criança, atribuindo a ambos os genitores o dever de sustento, guarda e educação. Nesse sentido, o não cumprimento dessas obrigações pode justificar medidas judiciais, como a fixação de pensão alimentícia, execução de alimentos e, em casos mais graves, sanções legais previstas na legislação vigente.
A realidade também dialoga diretamente com princípios como a dignidade da pessoa humana e o melhor interesse da criança, que orientam as decisões judiciais e políticas públicas voltadas à proteção familiar.
“Neste Dia das Mães, a reflexão proposta vai além da celebração: busca-se promover conscientização sobre a necessidade de fortalecimento de mecanismos legais e sociais que garantam suporte efetivo às mães solo, bem como a responsabilização adequada daqueles que se eximem de seus deveres parentais”, acrescenta Renata Sousa e Souza, professora do curso de Direito da Estácio.
Como e onde propor pedido de pensão
1. Base legal
A pensão está prevista no Código Civil Brasileiro e no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Além disso, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência reforça o direito à proteção integral e às condições dignas.
2. Onde solicitar
A mãe pode entrar com o pedido de pensão:
Na Defensoria Pública ou NPJ da Universidade Estácio (gratuito, se não puder pagar advogado) ou com advogado particular. A ação é proposta na Vara de Família.
3. Documentos necessários
Geralmente pedem:
Certidão de nascimento da criança, documentos da mãe (RG/CPF), endereço do pai e comprovantes de despesas (remédios, terapias, escola, transporte, etc.).
Laudos médicos que comprovem a deficiência.
Esses laudos são muito importantes, porque demonstram que os gastos são maiores do que o comum.
4. Como funciona o pedido
A ação é chamada de ação de alimentos.
Pode-se pedir:
Pensão provisória (já no início do processo).
Valor proporcional à renda do pai e às necessidades da criança.
Para crianças com deficiência, o juiz costuma considerar:
Tratamentos contínuos, medicamentos, terapias (fono, TO, psicólogo, etc.), além de cuidados especiais.
5. Se o pai não paga
É possível:
Cobrar judicialmente, pedir penhora de bens ou salário e até prisão civil em caso de atraso (medida legal prevista).
6. Dica importante
Se a criança tiver deficiência, o valor da pensão pode ser mais elevado e até não ter prazo para acabar automaticamente aos 18 anos, dependendo do grau de dependência.
Sob ótica da Psicologia
A sobrecarga emocional da mãe solteira é uma realidade frequente e, muitas vezes, seus desafios são invisibilizados. Trata-se de um acúmulo de funções, sejam elas financeiras, domésticas, educativas e afetivas, que recaem quase integralmente sobre uma única pessoa. Sem divisão de tarefas ou pausas reais, essa mulher precisa sustentar a rotina, tomar decisões e oferecer suporte emocional aos filhos enquanto lida, sozinha, com o próprio cansaço e suas angústias.
“Nesse contexto, a sobrecarga não é apenas prática, é também psíquica. O descanso pode vir acompanhado de culpa, o erro parece não ter espaço e a sensação de insuficiência pode se tornar constante. Soma-se a isso uma pressão social contraditória: exige-se força e autonomia, mas julgam-se as escolhas, os limites e até as falhas”, pontua Lillian Black, psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da Estácio.
Um outro aspecto delicado, e muitas vezes silencioso, é o sentimento de culpa pela ausência da figura paterna.
“Muitas mães internalizam a ideia de que falharam em suas escolhas ou que são responsáveis por essa ausência, carregando um peso emocional que intensifica ainda mais a sobrecarga. Trabalhar esse sentimento é fundamental, pois essa culpa, quando não elaborada, tende a gerar exaustão, autocrítica excessiva e sofrimento psíquico desnecessário”, alerta a especialista, reforçando que reconhecer essa realidade é essencial para romper com a lógica de que é preciso dar conta de tudo sozinha.
“Diminuir a sobrecarga passa também por legitimar limites e elaborar culpas que não precisam ser carregadas, abrindo caminho para uma vivência mais possível e menos solitária da maternidade”, conclui.
Por fim, a psicóloga Nina, professora do curso de Psicologia da Estácio, se utiliza de um provérbio africano que diz: ‘é necessário uma aldeia inteira para educar uma criança’. “Então, que nesse Dia das Mães, todo mundo que cerca essa mãe possa se lembrar disso. Da sua responsabilidade nessa coletividade, nessa aldeia. A maternidade não é e não deve ser um exercício solitário, muito pelo contrário, para ela se dar, é preciso da entrada do outro, dos outros. Então, você que está por perto seja presença na maternidade de alguém”, finaliza.
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