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O hotel lotou. A caixa d'água não foi avisada

Por Pedro Vitali, cofundador da T&D Sustentável, Agenda News

Publicado em 02/10/2026 09h30 - Atualizado em 02/10/2026 09h31

O hotel lotou. A caixa d'água não foi avisada Senivpetro no Magnific
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Pergunte a qualquer gerente de hotel como foi o último grande evento da cidade. Ele vai falar da ocupação, da tarifa média, da fila no check-in, do café da manhã que não deu conta. Dificilmente vai citar a água. A não ser que ela tenha faltado. Aí vira a única coisa de que ele lembra.

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Festival de música, congresso, feira, final de campeonato e festas de final de ano. Para a hotelaria, grande evento é sinônimo de caixa. A cidade enche, a tarifa sobe, a cadeia inteira gira. O que pouca gente põe na conta é que, por alguns dias, o hotel passa a operar muito acima do que foi desenhado para aguentar.

*Hipersazonalidade tem data marcada*
Alta temporada todo mundo conhece: tem calendário, tem histórico, dá para planejar, porém, a hipersazonalidade é outra história. É o pico concentrado, quando uma cidade recebe em poucos dias um volume de visitantes fora de qualquer média.

O Rock in Rio é o exemplo mais recente e fresco na memória. Dois finais de semana, milhares de pessoas e hotéis lotados. Janela comercial excelente. E um teste de estresse para a infraestrutura que ninguém anunciou no site de reservas.

Porque o impacto não para na recepção. Com a casa cheia, dispara o consumo de banho, descarga, lavanderia, cozinha, limpeza, piscina. Reservatório e bomba passam a responder a uma curva de consumo que não tem nada a ver com a de um dia comum.

*A água só vira assunto quando acaba*
Esse é o problema. Queda de pressão no chuveiro, reservatório beirando o nível crítico, bomba trabalhando fora do padrão. Numa semana normal, parece ocorrência isolada, e ainda sobra tempo para resolver antes que o hóspede perceba. Em semana de evento, essa folga some. A margem de erro diminui justamente quando a vitrine está mais exposta.

E hóspede que pagou diária de pico não quer saber de curva de consumo. Quer banho com pressão às sete da manhã, no mesmo horário que outros trezentos.

*Ninguém espera o elevador parar*
Tem uma incoerência curiosa na operação hoteleira. Ninguém espera o elevador travar para começar a acompanhar o funcionamento dele. Ninguém descobre que o ar-condicionado dava sinais de problema só depois que ele desliga em pleno verão. Com a água, é exatamente o que acontece: a gestão começa quando o problema já chegou ao quarto.

Enquanto isso, o país segue perdendo cerca de 40% da água potável que produz antes de ela chegar ao consumidor, segundo o Instituto Trata Brasil. Dentro de um hotel a escala é outra, mas a lógica é a mesma: quanto menos se enxerga o consumo e o comportamento da infraestrutura, mais difícil antecipar desvio e desperdício.
Por isso gosto de tirar essa conversa da gaveta da "economia de água". Em hotel, água é previsibilidade operacional. Monitorar em tempo real o nível dos reservatórios, a pressão da rede e o funcionamento das bombas permite enxergar a queda atípica ou a bomba fora do ritmo antes que isso vire torneira seca no quarto de alguém.

*Eficiência que não tira o conforto*
Existe um receio legítimo no setor: o de que falar em eficiência hídrica signifique pedir ao hóspede um banho mais curto. Não é isso. Na hotelaria, eficiência não pode custar conforto. O ponto é saber o que está acontecendo com a infraestrutura antes que o hóspede descubra por você.

O desafio não é escolher entre lotar o hotel ou preservar recurso. É operar de um jeito que permita as duas coisas ao mesmo tempo.
E o calendário não vai ficar mais tranquilo. Grande evento virou agenda fixa de muitas cidades brasileiras, e cada edição traz a mesma pergunta para quem hospeda: a estrutura aguenta o pico?

Minha aposta é simples. O hotel que vai se destacar nesses períodos não é o que cobra a maior diária. É o que chega ao fim do evento sem que nenhum hóspede tenha percebido o tamanho do esforço nos bastidores. Porque, com a cidade lotada, descobrir que faltaria água depois que ela acabou não é azar. 
É falta de gestão.



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A Coluna Momento ESG é um espaço dedicado a reflexões práticas sobre sustentabilidade, gestão e impacto positivo nos negócios. A coluna aborda, de forma acessível e estratégica, temas como eficiência operacional, uso inteligente de recursos naturais, inovação, governança e decisões que conectam resultado financeiro à responsabilidade ambiental e social. Mais do que conceitos, o Momento ESG traz aprendizados do dia a dia, provocando líderes e organizações a transformarem discurso em ação.

Pedro Vitali é engenheiro químico, cofundador e CEO da T&D Sustentável, startup que transforma eficiência hídrica em impacto ambiental e financeiro. Natural do interior do Espírito Santo, encontrou em um problema cotidiano o ponto de partida para empreender e gerar mudança real. À frente da empresa desde 2018, já ajudou organizações em todo o Brasil a economizarem mais de 1,5 bilhão de litros de água, unindo inovação, sustentabilidade e resultados concretos para a agenda ESG.